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  • Publicado em ANÁLISE

A TRANSFORMAÇÃO MUNDIAL e a implosão europeia (I)

por José Luís Fiori*
 
L ́Únion Européenne est confrontée à une nouvelle vague de colère populaire anti-immigration, anti-élites e antiglobalization [..] mais jusqu’ici, la réaction des elites européennes avait surtout consisté à diaboliser les poupulistes. Désormais, elles semblent vouloir prendre au sérieux les problèmes. Le Figaro, 31 octobre 2017

Um novo fantasma ronda a Europa: o fantasma da direita, da “cólera popular”, da xenofobia e do “separatismo”, e da volta dos velhos “egoísmos nacionais” que foram a força e a tragédia da Europa nos últimos 500 anos. Frente a isto, como afirma o jornal conservador francês Le Figaro, as elites europeias parecem perdidas e às cegas, tentando esconder sua ignorância e sua impotência atrás da “demonização do populismo”, transformado na causa genérica de tudo o que está passando. O plebiscito e a independência catalã reprimida pelo governo de Madri talvez sejam apenas os episódios mais visíveis e comentados de uma série de resultados eleitorais e acontecimentos políticos que vêm sacudindo o velho mapa político-ideológico da Europa, e que vêm colocando de ponta-cabeça seu projeto de unificação.

Essa “virada à direita” foi antecipada pela vitória de Jaroslaw Kaczinki nas eleições poloneses de 2012 e 2015; pela vitória de Viktor Orban nas eleições húngaras de 2014; e pela revolta da Praça Maidan, que derrubou o presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovitch, em 2014. Na mesma linha do que aconteceu, ainda que de forma menos contundente, nas eleições da Dinamarca, de 2014, e da Finlândia, de 2015.

Não há dúvida, no entanto, de que esta inflexão adquiriu uma outra dimensão e intensidade depois da decisão britânica de abandonar a União Europeia, tomada após a vitória do Brexit no plebiscito do dia 23 de junho de 2016. O movimento se acentuou a partir daí e parece ter chegado à sua maioridade com as recentes vitórias ou conquistas alcançadas pelas forças e lideranças “populistas”, sobretudo de direita, nas eleições de outubro de 2017 na Alemanha, na Áustria, na Eslovênia, na República Checa, na Eslováquia e, até mesmo na longínqua Islândia.

De todos esses resultados, o mais importante, sem dúvida alguma, ocorreu na Alemanha, apesar de que, neste caso, a votação do grupo “Alternativa para a Alemanha”, recém-criado em 2013, só tenha alcançado os 12,6% dos votos, que foram suficientes, entretanto, para abrir as portas do Bundestag para uma bancada de direita composta por 94 deputados, o que não ocorria desde 1945. Essa mudança na composição do parlamento alemão se deu às custas dos social-democratas e dos democrata-cristãos, descalçando o governo de coalisão de Angela Merkel, que ficou sem maioria parlamentar e foi obrigado a refazer sua base de apoio, problema que pode forçar a convocação de novas eleições parlamentares.

Passe o que passe, entretanto, o governo de Angela Merkel saiu extremamente enfraquecido das últimas eleições e não voltará mais a ser o mesmo da última década, o que deixa a própria União Europeia sem sua principal liderança, poucos meses depois do anúncio do “divórcio britânico”. Uma súbita perda de fôlego que não tem como ser compensada pela vitória solitária do jovem tecnocrata e financista francês, Emmanuel Macron, numa eleição presidencial que teve 25% de abstenções, e a soma dos votos dos nacionalistas e dos “eurocéticos”, de direita e de esquerda, chegou aos 43%.

Esta “explosão de cólera” do eleitor europeu inscreve-se ainda, com toda certeza, entre as consequências da grande crise econômico-financeira de 2008, que abalou a crença dos europeus na utopia global de suas elites liberais, e no próprio projeto de unificação da Europa, que deixou de ser um caminho garantido na direção da “riqueza” e da “civilidade democrática”. Mas é possível e necessário fazer uma distinção entre o que foi a primeira onda de protestos, contra as políticas de austeridades impostas por Bruxelas – junto com o BCE e o FMI– depois de 2008, e a nova onda de insatisfação que está atravessando a Europa.

Naquele primeiro momento, a reação popular veio das ruas, foi liderada por partidos de esquerda e atingiu – sobretudo – os “países mediterrâneos” da União Europeia, como aconteceu no caso paradigmático da Grécia, até que o voluntarismo de seus jovens governantes progressistas fosse derrotado, submetido e humilhado, em 2015, sobretudo pela Alemanha. Desta vez, entretanto, o protesto se concentra nos países da Europa Central – alguns, em confortável situação econômica – e está focado na luta contra os imigrantes e refugiados árabes e negros das guerras civis, e das guerras euro-americanas do “Grande Médio Oriente”. Em particular, na luta contra a “política de cotas” proposta por Bruxelas, com apoio da Alemanha, mas com a oposição de Grã-Bretanha, Dinamarca, Irlanda, Estônia, Polônia, Hungria, Eslovênia, República Checa e Eslováquia. Na primeira crise, falou-se de uma fratura dentro da União Europeia, entre os “países do norte” e os “países mediterrâneos”, mas agora se fala de nova fratura entre os “países do Leste” e os “países do Oeste”, apesar de tal divisão passar por dentro da própria Alemanha.

Agora bem, mesmo que se tenha em conta que esta conjuntura está ainda em pleno curso e que não existe uma explicação única para o que está acontecendo, é possível identificar alguns traços e impulsos que deverão ter papel decisivo no futuro imediato da União Europeia. Destacaríamos, entre estes traços:

i) Os novos movimentos, organizações ou partidos nacionalistas são quase todos de direita, apesar de não serem idênticos nem todos igualmente radicais. Eles não pertencem a nenhum tipo de “internacionalismo militante”, são mais bem “defensivos”, “identitários” e “autonomistas”, e não se posicionam da mesma forma frente às políticas de austeridade da União Europeia. A direita alemã, por exemplo, é radicalmente liberal, do ponto de vista econômico, enquanto outros partidos e governos pertencentes a este mesmo movimento defendem o nacionalismo econômico. Mas, sim, todos são de uma maneira ou de outra, em maior ou menor grau, xenófobos, anti-islâmicos, críticos violentos do que chamam de “política tradicional”, e cada vez mais contrários às decisões coletivas da União Europeia, ou mesmo, no caso dos países da Europa Central e da Polônia, em particular, à própria liderança da Alemanha dentro da União Europeia. Mas nenhum deles apresenta uma estratégia alternativa para a Europa, nem tem força para se opor às políticas impostas pelas elites liberais e seus aliados do mundo das finanças. Nem muito menos têm densidade territorial e econômica suficiente para levar a cabo algum tipo de política econômica nacionalista.

ii)  Enquanto isso, com exceção de Portugal e da Inglaterra, apesar de tudo, os partidos social-democratas, trabalhistas e comunistas tradicionais foram derrotados ou arrasados, literalmente. Divididos e sem uma mensagem clara a respeito da agenda de temas que hoje está sobre a mesa na Europa, e incapazes de formular um projeto e uma estratégia específica, construtiva e utópica para toda a Europa, aparecem quase sempre como um apêndice incolor das elites liberais ou democrata-cristãs, e de sua ideologia globalitária, como no caso explícito da Alemanha. Existe hoje um enorme vácuo deste lado do espectro ideológico europeu, e o mais provável é que a social-democracia europeia desapareça, enquanto uma miríade de outros grupos de esquerda deverá seguir buscando algum caminho que não está à vista no momento.

iii)  Por fim, tudo indica que as elites liberais europeias perderam o pé, e não têm mais nenhuma capacidade de inovação, ou de propor um novo projeto para a Europa com um mínimo de apelo ideológico para a juventude e para as populações excluídas pelo impacto das políticas econômicas patrocinadas por Bruxelas, pelo BCE e pelo FMI, sob tutela da Alemanha e do capital financeiro europeu. Repetem, como se fosse uma ladainha congelada no tempo, suas velhas ideias e propostas de austeridade fiscal e de reforma contínua, ou de eliminação pura e simples, das legislações trabalhista e previdenciária, e dos gastos públicos com a proteção social.

Sintetizando: do nosso ponto de vista, por trás dos recentes resultados eleitorais europeus, e por trás da “demonização do populismo” denunciada pelo jornal Le Figaro, está em curso um processo muito mais profundo e dramático de implosão política de um dos projetos mais grandiosos do século XX: o projeto de dissolução das fronteiras e de construção de uma Europa unificada. Hoje, sessenta anos depois de sua concepção original, no vácuo criado pela autodestruição da social-democracia e da esquerda comunista, a Europa aparece dividida e estressada, entre um nacionalismo de direita, belicoso mas impotente, e uma elite liberal desgastada e submetida ao mundo das finanças e de suas políticas recessivas e socialmente destrutivas. Como consequência, a Europa parece equilibrar-se sobre o vazio, enquanto seu projeto de unificação perde fôlego e deixa de ser uma utopia e uma esperança sobretudo para a juventude europeia. Mas o problema não acaba; essa implosão interna da Europa terá um impacto estrondoso sobre a geopolítica do Mediterrâneo, e sobre a transformação mundial, que está em pleno curso1.

* professor titular de economia política internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e consultor do Grupo de Estudos Estratégicos e Propostas para o Setor de Óleo e Gás (GEEP/FUP) [1)]

1 Em nosso próximo artigo, pretendemos analisar este mesmo processo de implosão europeu do ponto de vista de suas consequências geopolíticas mundiais.