FUP

A Total, a Petrobras e a abertura de mercados

em 13 de setembro de 2017, por Rodrigo Pimentel Ferreira Leão e Caroline Scotti Vilain* 

 
O que o Brasil deveria, mas não aprendeu com o processo de liberalização e internacionalização das empresas francesas de petróleo
 
A Total resulta de um projeto planejado e inserido em uma estratégia geopolítica 
 
Nos últimos meses, propagandas da empresa francesa Total têm estampado as paredes dos mais diversos aeroportos brasileiros, bem como tem sido comum encontrar diversas notícias relacionadas à entrada da empresa no Brasil.Esses movimentos não refletem somente uma “ação pontual” da Total, mas uma estratégia de longo prazo de forte diversificação e internacionalização das empresas de petróleo da França, combinada com uma mudança de atuação do Estado francês.Desde meados dos anos 1980, a França passou por uma progressiva liberalização das políticas do setor de petróleo. Essa liberalização ocorreu em três grandes etapas:1) Foram eliminados os controles de preços dos derivados de petróleo que vigoravam no país até 1986;2) Foram destituídas as políticas de quotas de importação e exportação, que protegiam as empresas nacionais no atendimento do mercado interno, substituídas pela liberalização do comércio de derivados no país;3) Foram fundidas as empresas estatais Elf e CFP/Total numa única empresa, a Total, com forte diluição da participação estatal na empresa (o Estado ficou com menos de 5% do capital da empresa), no começo dos anos 2000.Parte dos analistas poderia entender essa liberalização como fruto de uma política para permitir o aumento da concorrência e a melhora da produtividade do mercado de petróleo francês. Como mostrou, porém, o analista Llewelyn Hughes, em sua obra "Globalizing Oil", esse processo foi muito mais complexo, relacionado principalmente a dois fatores: às mudanças estruturais do mercado de petróleo na França e à centralidade do processo de internacionalização na nova “geoestratégia” do setor de petróleo francês.
 
Cercados pelo capital
 
Por um lado, após o forte aumento do preço do petróleo nos anos 1970 e a contínua redução do parque produtivo nos países desenvolvidos nos 1980, observou-se uma “longa recessão” no consumo de derivados de petróleo nessa região, inclusive na França.Entre 1973 e 1985, a redução da aquisição de derivados em solo francês foi em torno de 770 mil barris/dia, que representou um decréscimo de cerca de 30%. De 1985 até 2014, a demanda interna continuou com a mesma trajetória e caiu mais 20%, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE).Não por acaso, desde 2009 foram fechadas quatro das doze refinarias existentes no país europeu. Por outro lado, a independência de várias ex-colônias francesas detentoras de grandes reservas petrolíferas (Argélia, por exemplo) entre os anos 1960-70 e a dificuldade por novas descobertas de petróleo no território provocaram uma restrição na capacidade de produção de óleo cru das empresas estatais.Esse desequilíbrio, com menor níveis de reserva de petróleo cru e elevada capacidade de refino, coincidiu com um período de grandes oscilações no preço do petróleo internacional, o que alavancou maiores perdas com o parque de refino nacional. 
 
Com efeito, esse cenário começou a exigir o desenho de novas estratégias das corporações estatais francesas (Elf e CFP/Total) para recuperar as perdas ocorridas nacionalmente. Somado às oportunidades abertas globalmente no setor de petróleo a partir dos anos 1980, impulsionou tais empresas a apostar na internacionalização como forma de diversificar seus ganhos e alcançar escala global de produção em detrimento da atuação no mercado nacional.O mesmo Hughes lembrou que a estratégia de internacionalização e expansão para novos mercados foram vistas como alternativas de “diversificação e dos ganhos de escala (e, por isso,) a Elf e a CFP/Total se predispuseram em apoiar a liberalização e a abertura para o setor privado no mercado de petróleo francês (...). Isso reduziu os interesses por disputar e preservar suas 'reservas de mercados' dentro da própria França”.Além das potencialidades de novos mercados consumidores, como Ásia e Estados Unidos, foram abertos espaços para investimentos em petróleo cru e no refino em outras regiões do mundo.O resultado dessa política foi, por exemplo, a queda da participação do mercado francês no somatório de derivados vendidos pela Total em termos globais de 41% em 1983 para 19% em 2004. Esse último dado comprova que a estratégia de internacionalização se mantém até os dias de hoje. Com a transformação da CFP/Total e a Elf numa única empresa, a Total, fez desta última a principal protagonista dessa “corrida para exterior”.
 
Recentemente, a Total realizou diversas operações a fim de ampliar sua atuação em mercados estrangeiros. No Oriente Médio e na América do Norte, a empresa adquiriu blocos de exploração e fez parcerias com empresas locais.Os maiores destaques foram, no entanto, o ingresso na Europa, em primeiro lugar, e na América do Sul e África, segundo lugar. Na Europa, a Total anunciou recentemente a compra da empresa petroleira Maersk Oil, uma transação que custará 7,45 bilhões de dólares e ações e em dívida da empresa dinamarquesa. A integração das atividades com esta nova empresa fez da petrolífera francesa a segunda operadora no Mar do Norte, tendo notoriedade no Reino Unido, Noruega e Dinamarca.Na África e América do Sul, a Total tem realizado um movimento conjunto a fim de capitanear uma “integração externa” com os seus fornecedores franceses e se aproveitar do desenvolvimento tecnologico da Petrobras para explorar o petróleo também da costa da África negra.
 
Não por outra razão a Total assinou dois acordos com o Senegal, ambos para produção offshore em águas profundas e ultra-profundas. O acordo foi fechado com a estatal senegalesa Petrosen para exploração do bloco de Rufisque, na qual a francesa deterá 90% da participação.
 
O outro acordo no mesmo país foi assinado para avaliar o potencial de exploração do offshore ultra-profundo senegalês, no qual a empresa pode se tornar um operador do bloco. E, no Brasil, a empresa comprou participações no pré-sal dos campos de Libra (20%) e, mais recentemente, de Iara (22,5%), além de realizar uma “parceria estratégica” com a Petrobras que visa permitir sua atuação em outros segmentos, como o refino.Além da Total, a francesa Entrepose ingressou no mercado brasileiro, comprando a empresa de engenharia Intech, como parte dessa estratégia de “integração externa”. 
 
Portanto, os fatos apontados acima comprovaram que a internacionalização foi resultado de uma percepção dos atores de uma mudança setorial estrutural de longo prazo. As necessidades de ampliar as reservas de petróleo cru, o desaquecimento da demanda por derivados e a reestruturação global do setor petróleo, a partir da década de 1970,  “forçaram” um novo arranjo institucional (entre governo, estatais e setor privado) que resultou, ao mesmo tempo, em liberalização do setor petróleo e internacionalização das empresas francesas.Embora o setor privado e as próprias empresas estatais tivessem um papel central nesse novo arranjo, isso não significou que o governo francês se omitiu do processo, muito ao contrário.Ainda que a liberalização fosse a opção escolhida, o governo buscou preservar os interesses da soberania e segurança energética da França. Em primeiro lugar, atuou como grande mediador entre os interesses empresariais nacionais e estrangeiros para que todas essas reformas ocorressem de forma gradual, a fim de não gerar uma ruptura no modelo anterior.
 
E, em segundo lugar e mais importante, alterou sua forma de atuação para garantir a segurança energética francesa. Nesse sentido, três ações pouco destacadas pela literatura devem ser sublinhadas:O governo aceitou reduzir fortemente sua participação na Total desde que mantivesse o poder de veto caso qualquer venda de capital afetasse os interesses nacionais;Permitiu a liberalização dos preços e do comércio de derivados de petróleo, mas, em contrapartida, estabeleceu uma forte regulação para garantia de estoques a fim de atender toda a demanda doméstica gerida pelo Comité profissionnel des stocks stratégiques pétroliers (CPSSP)E manteve a posição de orientador/definidor da utilização do petróleo e de seus derivados no fornecimento enérgetico de longo prazo.Sobre este último aspecto, vale ressaltar que governo francês continua a controlar a participação do petróleo com fonte de energia para o país (30% até 2030) e estimula a internacionalização porque coaduna com seus interesses de integração produtiva e acesso a reservas globais de petróleo.Em suma, a liberalização observada na França nos últimos tempos dialogou com uma situação de “longa estagnação” do seu mercado interno e uma reavaliação “geoestratégica” da necessidade de internacionalização de suas empresas.
 
Essas reformas liberalizantes não foram, porém, implementadas a toque de caixa, mas coordenadas pelo Estado que definiu limites rígidos caso afetasse a sua segurança energética. Ao fim e ao cabo, todo esse processo somente foi construído porque houve a chancela de uma forte estrutura de poder estatal na França.Mesmo depois desse período, o Estado manteve sua posição central no desenvolvimento do setor de energia: como o principal proprietário das estatais de energia nuclear e elétrica e redirecionando sua forma de atuação no segmento de petróleo para um gestor de estoque de médio e curto prazo e planejador de longo prazo.Não se pretende fazer aqui uma avaliação da liberalização em si, mas apontar que quando isso ocorre, deve-se estar fortemente atrelada aos objetivos estratégicos nacionais bem como geopolíticos e não a uma miríade de interesses privados. Exatamente o oposto que acontece no caso brasileiro.
 
As atuais reformas de desregulamentação do governo Temer e o enfraquecimento da atuação da Petrobras ignoram a nova conjuntura do setor pós descoberta do pré-sal.A expansão sem precedentes do volume de reservas de petróleo, a possibilidade de ampliação do consumo no longo prazo e a própria capacidade de ampliação da capacidade produtiva interna colocam o Brasil numa posição extremamente diferenciada do caso francês.O desenvolvimento nacional e interno do setor petróleo abre espaço para uma maior influência no campo geopolítico, uma expansão das forças produtivas locais e uma possibilidade de preservar a segurança energética no longo prazo sem depender de qualquer outra região. 
Nesse sentido, o fortalecimento da atuação da Petrobras e a existência de uma institucionalidade estatal que coordene as atividades do setor são fulcrais para combinar o aumento das reservas de petróleo e do refino nacional com políticas adequadas para resguardar a segurança energética e a reindustrialização nacional. Essa breve comparação entre Brasil e França sugere que qualquer estratégia de abertura deve ser dirigida pelo Estado e é muito mais uma exceção relacionada aos seus interesses nacionais, em vez de ser uma regra geral. 
 
* Rodrigo Pimentel Ferreira Leão é economista (FACAMP) e mestre em desenvolvimento econômico (IE/UNICAMP). Trabalhou no Ipea, Dieese e na Petros. Atualmente é pesquisador da Cátedra Celso Furtado/FESP-SP e um dos integrantes do Grupo de Estudos Estratégicos e Propostas (GEEP) da FUPCaroline Scotti Vilain é Internacionalista (UFSC) e mestranda em relações internacionais (UnB). Atualmente integra o Grupo de Estudos Estratégicos e Propostas (GEEP) da FUP
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A festa das importadoras estrangeiras no mercado de derivados de óleo e gás no Brasil

William Nozaki* para Revista Fórum

 
Em artigo, o professor de Economia e pesquisador da Fundação Única dos Petroleiros (FUP), William Nozaki, detalha como o governo Temer vem abrindo mão da soberania estratégica da Petrobras.
 
O processo de abertura do setor de óleo e gás anunciado pela atual gestão Temer/Parente tem avançado a passos largos a partir (i) de mudanças nos marcos regulatórios da exploração de petróleo, (ii) do encolhimento das frentes de atuação da Petrobras, (iii) e da substituição das diretrizes de soberania energética e autossuficiência nacional em petróleo pela priorização da atração de capitais internacionais e pela intensificação da importação de derivados.
 
Além do visível desinteresse da Petrobras em participar da recente aprovação da segunda e da terceira rodada de concessão dos blocos do pré-sal, que deve acontecer no quarto trimestre deste ano, a empresa vem se retirando paulatinamente dos setores petroquímicos, de biocombustíveis e de fertilizantes entre outros e se desobrigou de atender com suas refinarias a totalidade do mercado nacional de derivados.
 
Um dos elementos que mais chama a atenção nos pacotes de desinvestimento da Petrobras é justamente a sinalização para a atração de investimentos privados no refino, dada sua importância para o abastecimento do mercado interno e o próprio apontamento no Plano de Negócios e Gestão (PNG 2017-2021) de que deve haver um crescimento de 5,2% entre 2017 e 2021 no mercado brasileiro de derivados.
 
Além disso, a empresa sinaliza para a venda de até 70% do seu parque produtivo nesse segmento, composto por 15 refinarias e 48 terminais e oleodutos. Ao que tudo indica, a venda da refinaria Landulpho Alves (RLAM) e do Terminal Madre de Deus, ambos na Bahia, compõe o primeiro sinal de uma sequência de desinvestimentos no segmento.
 
Sem tais investimentos, a própria Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) estima um déficit na importação de derivados de 1,1 milhão de barris por dia em 2030.
 
Se não houver investimentos no refino o Brasil precisará expandir a importação de combustíveis, o que se torna ainda mais preocupante nesse momento de retração do mercado como um todo.
 
Desde 2003 os investimentos em refino tiveram duas grandes fases no Brasil: a primeira de melhoria da qualidade dos combustíveis dada a redução da emissão de enxofre, a segunda de ampliação da capacidade de conversão de óleo em derivados ao se utilizar as refinarias para processar mais petróleo pesado brasileiro. A expansão da capacidade atual de destilação exigiria a implantação de novas refinarias, o que não ocorreu no período anterior e tampouco deve acontecer no momento presente.
 
Em outras palavras: a Petrobras que até recentemente, com sua política de expansão do parque de refino, capitaneou um processo de substituição de importações de derivados estrangeiros por produtos nacionais agora passa a fazer o inverso criando uma nova jabuticaba à brasileira: a política de substituição “por” importações, onde se abre mão de produzir nacionalmente para se intensificar a dependência das importações. Vejamos.
 
A Agência Nacional do Petróleo (ANP) tem cadastradas 379 empresas autorizadas a realizar a importação de derivados para o Brasil, tais como nafta, solventes, gasolina, asfalto, óleo diesel, biodiesel, óleo combustível, gás liquefeito de petróleo (GLP), querosene para aviação (QAV), além do próprio petróleo.
 
Desse total de licenças 116, ou seja: 30,6%, foram cadastradas a partir de 2016 na ANP. O crescimento no número de importadoras de derivados revela, do ponto de vista macroeconômico, a diminuição da capacidade de autossuficiência e de abastecimento do mercado nacional, e, explicita, do ponto de vista microeconômico, a intensificação da abertura econômica desse setor para outros players de fora do país.
 
Considerando as novas licenças oferecidas a partir de 2016 observa-se a acelerada presença de empresas estrangeiras beneficiadas recentemente com a autorização da ANP para a venda de derivados no país: 75% na importação de GLP, 71% na de óleo combustível, 63% na de óleo diesel, 50% na de nafta, 42% no QAV, 41% na de solventes, 38% na de gasolina. O único segmento para o qual não houve nenhuma licença concedida a empresas estrangeiras foi o de asfalto, não por acaso, o derivado que exige a menor intensidade tecnológica.
 
Há ainda o imenso lucro que está sendo realizado por estas importadora neste processo, no caso do GLP, comparando o preço internacional (cotação pelo Mont Belvieu em dólar americano) em 30/06/2017 o preço da tonelada para a indústria local estava 39,1% acima do preço internacional acrescido da internação. No caso do diesel, nosso maior derivado consumido no país, o preço interno está 11% acima do internacional (golfo americano) acrescido da internação.
 
No total, a presença de empresas estrangeiras importando derivados para o Brasil chega a cerca de 22,5% do nosso mercado com viés de alta, dada a diretriz de intensificação da venda dos ativos. Já no que diz respeito às quantidades importadas em litros, o mercado brasileiro depende da compra de cerca de 35,6% do conjunto de derivados utilizados no país.
 
A presença de empresas norte-americanas é a mais intensa, 18 delas vendem para o Brasil e respondem por cerca de 12,15% dos litros da importação de derivados, os 23,4% restantes dividem-se, por ordem de maior à menor presença, entre empresas japonesas, alemãs, inglesas, suíças e espanholas.
 
Quando observadas individualmente, entretanto, chama a atenção o papel das grandes petrolíferas produtoras-importadoras: a Petronas da Malásia responde por 8,7% da importação para o Brasil, a inglesa Castrol por 1,5%, a anglo-holandesa Shell por 8,5% e a francesa Total por 1,8%, aliás, vale destacar, as duas últimas representam os interesses do capital privado das chamadas Sete Irmãs, grupo composto pelas grandes companhias do setor.
 
A redução do papel da Petrobras no refino e o aumento da entrada de players internacionais no país são potencializados pelo estabelecimento de uma política de preços fortemente atrelada ao mercado internacional e pela menor utilização da capacidade instalada nas refinarias nacionais. Desse modo, os distribuidores tem menor oferta para adquirir internamente os derivados de combustíveis e os preços oferecidos pelos importadores tornam-se mais atrativos.
 
Com a expansão do refino – no período entre 2003 e 2014 – e com a Petrobras se responsabilizando pelo atendimento de todo o mercado interno, o país caminhava para uma situação na qual seria possível atender todo nosso mercado de consumo pela produção nacional, deixando um maior margem de manobra para a definição dos preços dos derivados. No entanto, a interrupção desse processo nos condena à posição de price taker (tomador de preço) ao invés de price maker (formador de preço).
 
No momento em que poderíamos nos transformar em um país soberano em petróleo, auto-suficiente em derivados e um player global relevante para a fixação do preço internacional do barril nossas elites seguem o caminho mais curto e preguiçoso, o de ceder os anéis junto com os dedos para não ter que usar suas mãos para trabalhar em favor da reconstrução do desenvolvimento nacional.
 
*William Nozaki é Professor de Ciência Política e Economia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e integrante do Grupo de Estudos Estratégicos e Propostas da Federação Única dos Petroleiros (GEEP-FUP). O autor agradece às observações dos demais integrantes do grupo: Cloviomar Cararine, José Sérgio Gabrielli e Rodrigo Leão

 

 

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Fiori: o lugar da Rússia e da guerra na nova estratégia global dos EUA

 

A polarização da sociedade americana, e a luta fratricida de suas elites, neste início do século XXI devem prosseguir e aumentar sua intensidade nos próximos anos, mas não devem alterar a direção, nem a velocidade do crescimento do poder militar global, dos Estados Unidos. Este tipo de ­­­divisão e luta interna, não é um fenômeno novo ou excepcional - se repetiu em vários momentos do Século XX - toda vez em que foi necessário responder a grandes desafios e tomar decisões cruciais no plano internacional.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com a entrada dos EUA na Primeira e na Segunda Guerras Mundiais, ou com a saída norte-americana das Guerras da Coréia e do Vietnã, e em vários outros momentos mais recentes, sem que isto tenha alterado a “marcha forçada” dos EUA, na direção do “poder global” que foi construindo a partir do fim da Segunda Guerra. O mesmo deve acontecer, de novo, neste início do século XXI, independente do que venha a acontecer com o mandato do presidente Donald Trump. E isso, porque existem dois consensos fundamentais, dentro da elite americana que se mantém constantes, a despeito de suas brigas internas e de quais sejam os seus partidos e facções no governo:

1. no campo das ideias, o consenso com respeito ao papel de liderança e comando militar que os EUA devem ter dentro do sistema mundial;

2. no campo material, o compromisso comum com a reprodução e expansão permanente da infraestrutura militar - humana e material - indispensável ao exercício deste poder global.

Graças a este consenso fundamental, a “grande estratégia” dos EUA, no campo internacional, segue sempre em frente, independente das “trepidações internas” da sociedade americana, orientada por dois objetivos fundamentais:

a) o objetivo da “segurança estratégica” dos EUA, envolvendo a prevenção ou eliminação de toda e qualquer ameaça aos seus interesses nacionais e militares, em qualquer ponto do mundo; incluindo o controle naval e aeroespacial de todos os “fluxos” relevantes para o exercício desta supremacia estratégica global.

b) com ênfase particular na “segurança energética” das forças militares e econômicas dos EUA e de seus principais aliados, com o controle do acesso às principais fontes de energia, mantendo seu direito ao bloqueio instantâneo, - em caso de necessidade ou beligerância - do acesso a elas, por parte dos seus concorrentes ou inimigos.

Deste ponto de vista, pode-se entender porque será quase impossível que prospere a proposta do presidente Donald Trump de mudar nas relações dos EUA com a Rússia, procurando definir em comum acordos e responsabilidades específicas em “áreas estratégicas” e “zonas de influência” definidas de comum acordo. O presidente Barack Obama já havia ensaiado um movimento nesta direção, no início do seu primeiro mandato, mas foi prontamente demovido deste seu objetivo inovador, pelo establishment americano, e pelo seu próprio partido. Porque isto exigiria da Rússia a aceitação e legitimação do poder global americano, e envolveria, como contraparte, a aceitação norte-americana da existência de áreas compartilhadas e/ou exclusivas, sob influência ou controle russo.

Mas sobretudo porque esta despolarização da relação entre os dois países, deixaria vago o papel vem sendo cumprido pela Rússia neste último século e meio, como o “inimigo necessário” que funcionou como referência e como princípio organizador da estratégia militar da Inglaterra, na segunda metade do século XIX, e da estratégia global dos Estados Unidos, no Século XX. Um mesmo inimigo comum que cumpriu durante quase dois séculos, o papel de organizador e hierarquizador dos objetivos estratégicos e do planejamento militar das duas grandes potências anglosaxônicas, e, em menor grau, também, dentro da Europa, da França e da Alemanha. Por isso, hoje de novo, sem o “inimigo russo” o “império militar” americano perderia sua “bússola” e teria que sucatear uma parte importante de sua infraestrutura global que foi construída com o objetivo específico de conter, enfrentar e derrotar a Rússia, envolvendo um investimento em recursos materiais e humanos absolutamente gigantescos.

Deste ponto de vista, o ingresso da China é - sem dúvida - a grande novidade do sistema interestatal, nestas duas primeiras décadas do Século XXI, e representa de fato uma ameaça de médio prazo à supremacia econômica e militar dos Estados Unidos no Leste Asiático, e na Ásia Central. Mas ainda não é uma ameaça global, nem se transformou no foco da “grande estratégia” norte-americana, entre outras coisas, porque não dispõem da capacidade atômica russa de destruir o território americano. Deste ponto de vista, deve-se prever com toda certeza que enfrentamento dos EUA com a Rússia ainda seguirá sendo o grande guarda-chuva e a principal justificativa do uso cada vez mais frequente e generalizado, pela política externa norte-americana, das chamadas guerras de “quarta geração”, ou “híbridas”, na sua relação com as potências intermediárias, e com os países da periferia do sistema.

Apesar de que o próprio colapso da URSS, nos anos 80/90, possa ser considerado como o experimento pioneiro e bem sucedido das “guerras de quarta-geração”, este tipo de guerra só passou ser utilizado pelos EUA, como um instrumento regular e frequente de sua política externa, a partir das “revoluções coloridas” da Europa Central, e das “primaveras árabes” do Norte da África, generalizando-se a partir daí para quase todas as partes do mundo, inclusive para América do Sul. Uma sucessão de intervenções que transformou este tipo de guerra, na segunda década do século XXI, num fenômeno quase permanente, difuso, descontínuo, surpreendente, e global.

Trata-se de um tipo de guerra que não envolve necessariamente bombardeios, nem o uso explícito da força, porque seu objetivo principal é a destruição da vontade política do adversário, através do colapso físico e moral de seu estado, de sua sociedade, e de qualquer grupo humano que se queira destruir. Um tipo de guerra que usa a informação mais do que a força, o cerco e as sanções mais do que o ataque direto, a desmobilização mais do que as armas, a desmoralização mais do que a tortura. Pela sua própria natureza e seus instrumentos de “combate”, trata-se de uma “guerra ilimitada”, no seu escopo, no seu tempo de preparação e na sua duração. Uma espécie de guerra infinitamente elástica que dura até o colapso total do inimigo, ou então se transforma numa beligerância contínua e paralisante das forças que se dividiram e foram jogadas umas contra as outras, por fatores internos, mas com a contribuição decisiva da potência interventora.

Neste novo contexto, a própria defesa da democracia e dos direitos humanos – que marcou a última década do século passado – perdeu relevância, porque são intervenções que não tem limites éticos. Além disto, essa nova guerra não tem nenhum compromisso com a reconstrução do “adversário” como aconteceu, por exemplo, com a reconstrução do Japão e da Alemanha, e com o próprio Plano Marshall, destinado à reconstrução europeia, depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Não está mais garantido nem mesmo o acesso privilegiado ao mercado interno dos EUA, como ocorreu com a Coreia, o Japão e vários outros países destruídos e depois ajudados pelos EUA.

O que tem sido oferecido, na situação atual, é apenas o velho cardápio do rigor fiscal, da abertura econômica, e da privatização e desmontagem dos estados, proposto desde o início dos anos 90, pelo chamado “Consenso de Washington”. Por analogia, muitos analistas falam de uma nova Guerra Fria, ou de uma Terceira Guerra Mundial, quando se referem a este estado de guerra intermitente e contínuo do Século XXI. O importante, entretanto, é compreender que o fenômeno da guerra adquiriu um novo significado e uma nova duração dentro do sistema internacional, e dentro da estratégia de poder global dos Estados Unidos. Em grande medida graças à própria necessidade endógena de reprodução e expansão contínua do “império militar” americano que foi construído durante a segunda metade do Século XX, mas que se expandiu significativamente depois do fim da Guerra Fria.

Por fim, é muito importante que se entenda, sobretudo no caso dos vivem na “periferia norte-americana”, que acabou definitivamente o tempo da “hegemonia benevolente”, com seu compromisso irrestrito e universal com a democracia, e com sua proteção seletiva de alguns casos de desenvolvimentismo e de bem-estar social. Além disso, trata-se de um processo irreversível, cujo futuro, entretanto, permanece inteiramente imprevisível.

* Professor titular de economia política internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e consultor do Grupo de Estudos Estratégicos e Propostas para o Setor de Óleo e Gás (GEEP/FUP)

 

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